Vocês já tiveram a sensação de finalmente encontrar alguma coisa que faz sentido na vida? É uma mistura de “Por quê não pensei nisso antes?” com “Finalmente encontrei algo que eu gosto de fazer”. E eu estou falando das coisas simples, do dia a dia, nada de mistérios profundos do Ser ou teorias “good vibes”.

Falo do corpo. E das maravilhas que um corpo é capaz de realizar.

Descobri isso há quatro anos, quando uma amiga me levou para fazer uma aula experimental de pole dance. Desde aquele dia, tenho vivido em mim, transformações tão profundas, que vão muito além da aparência física. O que mudou em mim e segue mudando, é a aparência da alma. É a alma que se alegra quando estou em contato com a barra. Se estou triste, me sinto parte do seu aço inerte, duro e frio. Essa frieza toca minha pele e sinto o choque da diferença de calor. Nesses dias, meus movimentos começam mais lentos, mais tímidos, mais sofridos. É como se todo o meu Ser se lamentasse através dessa dureza. Mas, conforme os movimentos vão ficando mais ágeis, conforme a respiração e o batimento cardíaco aceleram, o calor do meu corpo contamina a barra e ela responde com satisfação aos meus impulsos e travas, absorvendo todo o meu desalento para si e transmutando-o em força, resiliência e superação. Minha alma chora e se renova nesse atrito.

Nos dias de muita energia e euforia, a barra me recorda que é preciso respeitar o tempo. O tempo de cada ação, de cada giro, de cada corpo, de cada vida. Nesses dias, ela me pega pelas mãos e me lembra da importância de manter o foco, de marcar o movimento, de estar presente. Ela me fala do tempo vivido com qualidade. É como se me dissesse: respira, acalma, aterra. E é ela que recebe toda energia que sobra em mim, que me transborda. E assim, eu me caibo de novo.

Se tenho medo, minhas mãos seguram forte em sua estrutura firme e me sinto segura em contato com a sua estabilidade, solidez e confiança. São dias que ela me nutre generosamente de coragem, ousadia, paciência e determinação.

Quando estou apaixonada, a barra me afaga, dança comigo um dueto amoroso, me lança e me rodopia. Me segura em seus braços e se alimenta ela mesma, da minha emoção. São dias em que as pontas de pés são mais bonitas, que os giros saem sem esforço, que os movimentos parecem mais leves. São dias de vôos altos e pés fora do chão.

É por isso que dias como o de hoje, parecem desconectados da realidade. Tomo meu café observando o movimento da ciclovia aos fundos da minha casa e sinto como se estivesse proibida de encontrar uma velha amiga, dessas que sempre têm uma frase que te resume. Que te conhece tanto, que apenas um olhar basta para comunicar a mensagem…

Termino o café com um suspiro paciente, entendendo o momento do mundo, mas aguardando ansiosamente a hora de poder me jogar de novo nessa aventura de aço, que por vezes me machuca o corpo, mas outras tantas, me cura a alma.

Edna Froes